terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Feliz Natal.

Como dói a vida, como dói fracassar um dia após o outro e ter a face surrada diante de tais figuras que já deveriam ser autossuficientemente doridas. Como dói não ser nada diante dos olhos que deveriam julgá-lo tudo, e como doem os lábios cortados por isso. Como dói ser acusado de cada tropeço - admito: muitos em 20 míseros anos - e jamais receber incentivos devidos das pessoas que mais deveriam fazê-lo.

Como doem as flores de plástico, como doem os vasos de madeira.

Como dói encerrar ciclos sabendo que nada nessas paredes, até aqui, representou alguma coisa.


Eu te odeio.

Feliz Natal.

[revisited]

Acho que meu pai - mesmo nunca tendo dito - jamais teve orgulho de mim.

Me desculpa, pai. Me desculpa por nunca ter-lhe dado motivos pra se orgulhar de mim, por nunca ter sido aprovado ou por nunca ter levado uma oportunidade adiante; por nunca ter sido o melhor competidor ou o de melhor caráter e fibra moral, ou por nunca ter sido um bom esportista ou o teu companheiro de noites de quarta-feira. Me desculpa por nunca ter conquistado nada e por nunca ter trazido título nenhum sob teu nome - e por nem mesmo querer levar o teu nome -, me desculpa por jamais ter te dado um grande e largo sorriso de orgulho por qualquer vitória que jamais tive, ou por nunca ter sido um vencedor. Me desculpa por usar próclise quando deveria usar ênclise, e me desculpa por não tentar corrigir isso.

Eu sempre quis ser escritor...

...mas escritores passam fome.

Me desculpa por cada palavra de desculpa, e por jamais me arrepender de nunca ter me arrependido. Me desculpa por ser a vergonha que sou, e por sofrer todas as noites por isso.

Eu ainda te amo, pai.
Eu te odeio, Angelita.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Reconfigurando Ovídio.

Quando se vive à noite, escuridão é lar. As pupilas dilatam quase o tempo inteiro em que se existe, e o cheiro é de orvalho. Os diálogos são os pensamentos, que mesmo quando gritam são calados, e a boca que mais é capaz de gritar é a do mar, gritando suas juras ou injúrias pelo vento. Meu coração nunca é tão puro e sincero e cheio de verdades lindas e puras pra contar quanto é à noite. O problema é que à noite vivo sozinho, e não tenho ninguém com quem compartilhar os mais belos e sublimes e sinceros pensamentos que sou capaz de formular. E a pessoa que creio amar vive no paraíso de Hipnos enquanto mergulho, sem dormir, nas façanhas de Morfeu; por isso o Ovídio dentro de mim vive sozinho, ou deixa de herança, da noite pro dia, suas verdades mais belas. As verdades de amor. De vida. De sonho. De amor. De bem-aventurança. De esperança.

De amor.

Para Carine: todos os meus mais belos sonhos.
Mesmo abandonando-me Hipnos, serei teu Morfeu enquanto pudermos sustentar essa paixão mórbida.

Sou um rascunho: pelo jeito a mão tremia.

Meu erro é acreditar que o passado é retornável como embalagens plásticas de qualquer coisa, ou que sou reciclável como o papel, sendo que de papel só tenho a fragilidade: rasgável, amassável, dobrável, descartável. Onde me rabiscam e apagam, como se fosse possível apagar completamente os borrões escritos por tinta permanente. O meu maior erro é tentar apagar e redesenhar e tornar a apagar e reler e reescrever na mesma página, quando a próxima, em branco, é bem mais simples e convidativa para escrever um texto completamente novo, com novas estruturas e histórias que só dependem de minha boa vontade. Como o desenho de ti que tenho guardado na memória. Como todos os desenhos de flores que ainda pretendo te entregar. Não abusarei do teu entendimento, só entendas que estou dando o melhor de mim pra traçar linhas perfeitas nessa carta da vida, que já lhe foi entregue numa noite de maio.

E o teu maior erro é achar que não tenho cura.

(não desista de mim.)

domingo, 1 de dezembro de 2013

Racional como Byron.

É perigoso alimentar o ódio dessa forma; para um homem como eu. Para um animal como eu. Para um monstro - da escuridão e rutilância, como diriam os Anjos - como eu. Conquanto ao longo de minha vida jamais tenha conhecido criatura capaz de transformar concretamente minhas entranhas em verdadeira cólera ou de fazer com que minha mente chegasse ao ponto de arquitetar, de forma organizada e verdadeiramente pretendida, a agonia daquele a que me refiro como O Verme. Não daqueles pensamentos passageiros que se formula contra um irmão com quem se briga, ou contra um velho medíocre que rouba seu lugar na fila do banco ou com um velha de barbas que fala alto no corredor do interior do ônibus. Não daqueles pensamentos que esvanecem, evaporam, desintegram. É constante. E perigoso. É desejar o mal com tal força que acaba-se tranformando-o num projétil em alta velocidade. Em estopim sobre os barris de pólvora. Num câncer maligo. É a carne dilacerada e putrefada, é a necrose a corroer cada centímero do corpo.
Ah, se eu conseguisse frear esse desejo mórbido de destruí-lo. Se eu fosse capaz de suprimir de minha mente esses maus pensamentos que fazem de mim um animal raivoso. De mim um corroente concentrado. De mim um mal para mim mesmo.
A ânsia de vômito transfigurada em cólera.

Desculpe, Luther King, mas eu me permiti chegar tão baixo. Eu que jamais me permiti levar alguém tão a sério a ponto de odiá-lo. Eu que sempre preferi o desprezo. Eu que tinha insônia, e hoje não acordo mais.
E nas palavras de Schopenhauer, "não devemos mostrar a nossa cólera ou o nosso ódio senão por meio de atos. Os animais de sangue frio são os únicos que têm veneno." Feri-lo-ei com os venenos letais de cada ato que me é alcançável, se tornares a ousar aproximar-se por suspiros e súplicas do que não lhe mais diz respeito.

Renard dizia que um pouco de desprezo economiza bastante ódio. Mas cansei de ser econômico. Odiá-lo-ei descomedidamente, imensuravelmente, ininterruptamente.

Ah, perdoa-me o equilíbrio da alma, mas esse pedaço de mim precisa desse ódio pra existir!

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Desconfiguração de Ovídio.

Como, com tão pouco, é-se possível tornar-me frágil como o vidro? Rasgável como o papel? Como o aço incandescente, como a Terra sem órbita. Como os olhos vendados, o corpo ferido, a alma cortada. Mergulhado no lago da Limnátide, deixado para ser devorado pelas malditas filhas do Olimpo. Ah, se Marius pudesse servir-me de exemplo! Ah, se Cosette servisse de exemplo para todas as ninfas feitas para habitar e estraçalhar a idade contemporânea! Meus olhos já não tem descanso, e meu coração só pulsa por Melpômene. Até que ponto as aventuras infames são capazes de tornar o que busco num simples e longínquo casebre em Númenor? O mar me engoliu, a desassociação e o desamparo me acolheram, as filhas de Salmacis me cercaram, e devorar-me-ão como se fez a Hermafrodito. Oh, que má sorte ver-se enlaçado pela ninfa egoísta e ser por ela amaldiçoado! Oh, que tédio infame tornar-se dois em um, sem definição de sexo predominante, que infinito infortúnio viver dois espíritos inimigos num corpo! São como paredes inquebráveis. São como o meu medo de nunca mais abrir os olhos. Até que se mergulhe e, pelo conformismo. Até que se mergulhe e, pela maldade. Até que se mergulhe e, pelo cansaço. Até que se mergulhe e, pelo egoísmo, jamais se torne à superfície. Salmacis jamais deixaria que o mundo visse que amava Hermafrodito. Jamais revelaria ao mundo, mesmo que não fosse esse o melhor exemplo, o quão belo poderia ter sido.
Então me vejo confuso e escondido sob lençóis invisíveis que me impedem de ver e ser visto, eu me vejo condenado pelo medo de ser sempre invisível. Preso nesse desenvolvimento (não por desenvolver-se, mas por não estar envolvido) existencial. Você pisa no freio, você puxa os arreios, mas...

O mal-do-século: o descaso que condena.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Quando você amaldiçoa o momento em que quis salvar uma vida.

Quando você e sua amada, no caminho de casa, encontram um belo gato branco perdido numa rua movimentada. Quando você e sua amada, indecisos com o que fazer, resolvem levar o gato pra casa, para protegê-lo das ocasiões da noite, dos carros acelerados e suas rodas pesadas, dos cães, dos homens (semelhantes).
Quando você acaba indo dormir às 3 da manhã - nada pessoal, nada em particular, só insônia - e acorda às 6 com dois felinos rosnando um para o outro. Você sem saber o que fazer: apartar (trancafiar um num quarto e outro no banheiro), expulsar (exilar um dos dois para a rua) ou ignorar (enfiar a cabeça debaixo do edredom e voltar a dormir, o que finalmente foi capaz de fazer)? Não pode apartar, gatos confinados são um maior problema. Não pode expulsar, ambos eram gatos que, no contexto, não poderiam ter a chance de se perder na rua, e ignorar não era opção.
Então você segue observando a interação de ambos, fazendo o possível para prestar a atenção e impedir qualquer tentativa de qualquer um deles de urinar em qualquer cômodo. Era a preocupação principal: não ter de limpar urina de gato de cômodos de difícil acesso.
Quando, sentado sobre o sofá, sob seu edredom cheirando a amaciante, o gato branco sobe em você, dobra a pernas e defeca sobre ambos: você e seu edredom, agora não tão cheiroso assim. Não, não eram fezes duras, consistentes, de fácil remoção. Era uma pasta marrom e malcheirosa, não num só lugar, mas em vários, delimitando a miséria da sua manhã em cada canto do edredom. Num reflexo - tu vais te arrepender disso! - você expulsa o gato que, não tendo terminado, corre espalhando merda pelo chão da sala, da cozinha, e sobre a cadeira da mesa de jantar. Duas cadeiras.

Então, praguejando contra todo o ocorrido, você limpa, cômodo por cômodo, objeto por objeto, escovada após escovada. Removedor de manchas, cloro, detergente, pano de chão, escova. Três horas de sono. Três. Não queria ter de limpar urina em cômodos de difícil acesso, teve de limpar merda em lugares de pior acesso ainda. E o dia começa, literalmente, com muita merda acontecendo.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Nostalgia.

Tudo tem o sabor salgado do mar, é desumanamente pesado, e anestesia a agonia de estar-se preso à vida. O inverno acaba-se levando mais pedaços desmembrados de mim, a felicidade que me há de matar por um dia esvair-se por entre as estrelas, por entre os tênis sujos de noite, por entre os cabelos rescendendo a perfume. A noite sempre acaba. As estações frias também.

Eles não entendem.

Tudo é preto e branco.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Mutter und Geld.

Como nasce uma pérola do lixo?
Como nasce um leão do ventre de uma porca?
Como sangue quente pode escorrer de um cadáver há muito em decomposição?
Fenômenos insolúveis de uma natureza escassa de absurdos. Como as minhas noite sem lua ou estrelas, ou meus olhos sem brilho ou vida. Ou mesmo minhas palavras sem sentido.
Como papel dá e tira vidas? Como papel é a razão de existir, e como papel é capaz de matar a fome? E criar a fome?
Papel é expor um cama atrás de uma vitrine, enquanto diante desta, um homem dorme nas pedras. Papel é homens comerem areia, enquanto outros comem o mundo.

Eu odeio o papel.
Eu odeio os homens.
Eu odeio o lixo.
Eu odeio a porca.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Aos vermes a ruína: um pesadelo que sonhei noutra noite.

Sonhei contigo novamente, garoto.
Meus punhos cortavam os ares de encontro à tua cara - sim, digo cara não por gosto, mas pela licença que dou à palavra rosto de não habitar tua descrição -, e minhas pernas funcionavam como locomotivas para meus pés que encontravam teu estômago. Eu sonhei que como na primeira vez, tua concubina se ajoelhava aos prantos, implorando que eu nada fizesse; eu me limitava a sorrir e continuar a esmurrá-lo, poupando-a de saber da tua última tentativa de tomar o que não é teu - é meu -, sem considerar aquela que no momento chorava por ti. Alguém que tu, tão friamente, desprezou ao abusar de minha paciência e espaço ao tentar uma reaproximação com alguém que não lhe diz e jamais lhe dirá respeito.
Um homem não despreza sua mulher assim.
Um homem não trai assim.
Um homem não pode ser tão desonrado.
Um homem não ignora alguém que habita/habitou (sabe-se lá que espaço a pobre miserável ocupa na tua alma sórdida, repugnante, ascosa, asquerosa, baixa, torpe, imunda, desgostante, desprezível - sim, sei que são sinônimos, mas cada um é um belo e diminuto reconhecimento do teu ser, do[a] teu[tua falta de] caráter.) seu coração.
E é por isso que não o trato como homem; tampouco deveria tratá-lo como garoto. Abaixo de um verme, és, pra mim, vômito.
E em meu sonho - um pesadelo, pois é um pesadelo ter por irrealidade o que gostaria de concretizar numa vida - eu esmurrava e golpeava e trazia dor às tuas entranhas com um gosto inominável. Tua cara era já uma massa disforme de carne, e nunca vi num sonho tal riqueza de detalhes, pois mesmo ao chão eu via teu rastro de sangue, e tiras do mesmo vinho vermelho manchando-me o punho. Pode parecer desumano, eu sei, mas o que há de errado em causar sofrimento aos vermes? Aos parasitas? Às menores e menos significantes formas de vida?
Eu desejo a ti o mal. A dor. Tudo o que há de frio e disforme no mundo da desgraça. Eu desejo a ti a distância de todos os teus sonhos, de todas as aspirações, de toda a felicidade. Eu desejo o limbo - deixo o inferno para inimigos mais dignos -, uma escuridão inabitável onde viverá somente com teus pesadelos. Eu desejo, criatura - não uso como vocabulário usual: trato-o por criatura porque o vejo abaixo de um humano -, que tudo o que há na tua vida torne-se em ruína e que teu gosto por viver seja tão mínimo que findar-se a si mesmo seja tua única saída. Tua única luz será a escuridão, e aí eu sorrio por um breve segundo - mesmo teu fim não merece maior atenção de mim -, e um lado de mim (o pior) torce para que tu ouses cruzar meu caminho, novamente, com intenções que se contraponham às minhas. Com interesses que cruzem os meus. Com desejos que desrespeitem meu espaço.
E jamais, nem por um segundo, desejo-te a morte.
Eu quero mais.


[E eu que me julgava curado, vejo que as palavras vis ainda buscam amargar-me a língua.]

terça-feira, 6 de agosto de 2013

"Notaram que às vezes a gente topa com alguém com quem não devia ter se metido? Esse sou eu."


Eu sou [fui] um homem problemático.
É, eu bebia, eu fumava, eu brigava e eu não dava a mínima pra uma vida de desperdícios. Mas ela tirou cada vício de mim, e se foi capaz disso, não seria capaz de me impedir de deformar a tua cara? Ela também tirou minha síndrome de troublemaker.
Mas uma dica: tenha mais senso de autopreservação, punk, você vai precisar.
Eu ficarei em silêncio. Por ela.


Mas não pense que pode chegar perto de minha mulher e ficar impune.

[Hoje eu queria destruir um rosto humano, mas só fui capaz de desmembrar uma ave morta.]
[don't worry, baby, your request is a order.]

quarta-feira, 24 de julho de 2013

[é o estar-se preso por vontade]

Jamais duvide do muito amor que tive [ontem], tenho [hoje] e terei [amanhã] por você, conjugado em todos os tempos, sentido com todas as forças, superados por todas as batalhas [internas ou não]. Pois eu te quero pela manhã, e sinto a tua falta pela noite.

Você não sabe de todos os conjuntos de palavras que eu gostaria de casar nessas sentenças, mas da minha indisposição cerebral para veicular qualquer um deles. Eu durmo e quase sonho em pé, eu sonho e quase durmo em pé.

Tá frio demais aqui.

Quero teu corpo pra aquecer o meu.

Age Lossless.

Eu sou uma anomalia.
Não me julgue são e salvo, tampouco tente qualquer compreensão ou aproximação do meu alter ego.
Ele deve ser mantido lá, preso, acorrentado e amordaçado, e sendo eu incapaz de matá-lo, tento calá-lo com toda a força que me julgo capaz. Ele é o escuro e a sombra do que já fui e do pouco que sou. Ele é o ciúme e a inveja, a fome pela desgraça e a desgraça faminta. Ele é o sangue derramado de um oponente em potencial [ou não]. Ele é o fundo do fundo de meus olhos, e o ponto mais escuro também.
Ele não é bom. Ele não é justo. Ele não é compreensivo.
Ele não sou eu.

Não tenha medo de mim, mas não tente compreendê-lo.

Você já carregou outro alguém dentro de si por tanto tempo?

Nascimento.

Gravata cuidadosamente passada; camisa branca fechada até o último botão; calças de cetim bem cortadas; cabelos penteado com gel. Os olhos tristes repousados no além. Os lábios cortados pelo frio. A configuração caricata do fracasso de uma vida inteira que poderia ter sido e não foi. O horizonte deformado de uma paisagem de prédios que se estendiam quilômetros pela frente e morriam à margem do rio; as montanhas disformes detrás de tudo. A barba rala sombreando-lhe o rosto. As mãos trêmulas.
Não beijara a garota no colégio.
Não dissera à jovem madura de bom gosto musical o quanto era interessado nela na faculdade.
Não movera os pés na pista de dança no casamento do irmão.
Abrira o guarda-chuva.
Escondera-se diante da tempestade.
Acendera o primeiro cigarro: gastou mais de cem pratas por mês pra sustentar o vício.
Aceitara o primeiro emprego.
Estabilizara-se no primeiro emprego.
Acomodara-se.
Sonhava em escrever romances; jamais terminou o primeiro.
Nunca desatara o nó de sua garganta.
Nunca nascera de verdade, por isso não morreria jamais.
Correu os olhos tristes pelo horizonte e viu o mundo se configurando quieto prédio abaixo. Lá de cima tudo era tão pequeno e calmo. Mesmo o vento era revitalizador. Respirou pela última vez. Optou por não fumar pela última vez. Jamais amara. Jamais sonhara. Jamais vivera. E agora, dando um passo à frente, vendo as pernas vacilarem e encontrarem o ar do alto daquele edifício, via o mundo se mover depressa pela primeira vez. O estômago não doera, e pudera respirar profundamente a única vez em sua vida. Viu o chão se aproximar, e em seguida, sem dor ou medo, nasceu.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Schuldig.

Assinado meu atestado de fracasso, ando pé ante pé pra não acordar a má sorte, que já estava à espreita muito antes de eu sabê-la viva. Entendidos meus termos de marcado pelo agouro, torço manhã após manhã para que, ao finar do dia, eu guarde um sorriso no peito, e não outra poça de lágrimas a gelar-me a alma.
Então faço planos, marco horários, risco datas no calendário mental, e torço com a cabeça erguida para que, dessa vez, cada segundo valha a pena. O penar não é válido, e sou inimigo de todos os relógios. E que mal eu fiz para que se fizesse de mim semelhante chacota diante da sorte? Não programei corretamente o horário mental? Não risquei o calendário no dia certo? Não corri a plenos pulmões para chegar a tempo de ver teu sorriso feito diante de teu desejo de assistir à película de teu ídolo? O que fiz? O que me faltou? Deveria ter corrido mais? Deveria ter esmurrado algum responsável pela ausência de tempo?
Não há culpa em ser marcado pela sorte; sou o esquerdo [canhoto, é verdade], escolhido pelo anjo torto de Drummond a ser, como ele, gauche. Só quero doar a ti toda a fortuna que ainda me existe e que caiba em minha sorte ter.

É só pra isso que ainda vivo. Fora o viver, só existi, desde sempre.

Queira-me bem; só dessa vez.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Sobre amores e cubos.

Talvez eu não precise mais sustentar essas conversas desconfortáveis, nas quais finjo ser sociável e compreensivo, nas quais forço uma graça que não possuo e escuto fatos que não tenho o interesse de ouvir; e se o fiz no passado, se procurava dar e receber atenção de terceiros irrelevantes e me colocava a par de conversas insignificantes foi pra me sentir mais humano, pra me sentir parte da realidade social ao meu redor, pra não me julgar um completo artefato de pedra que milagrosamente é capaz de se mover e criar pensamento. Talvez eu já tenha adquirido nos meus dias presentes os elementos necessários e suficientes pra fazer de mim um ser completo. Talvez eu não precise de mais pessoas do que já tenho, nem de mais risadas forçadas, quando já sou capaz de sorrir de verdade. Eu tenho tudo o que preciso. Eu tenho um cubo, e eu tenho amor.

Que mais preciso?

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Wahrheit.

"Eu acho que está escuro e parece que vai chover" - você disse.
"E o vento está soprando como se fosse o fim do mundo" - você disse.
"E está tão frio, é gelado como se você estivesse morto".
E então você sorriu por um segundo.

"Eu acho que estou velha e estou sentindo dor" - você disse.
"E está tudo acabando como se fosse o fim do mundo" - você disse.
"E está tão frio, é gelado como se você estivesse morto".
E então você sorriu por um segundo.

Às vezes você me faz sentir como se eu vivesse na beira do mundo. Como se eu vivesse na beira do mundo.
"É simplesmente o jeito que sorrio" - você disse.

Plainsong - The Cure

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Te encontro do outro lado, Jimmy.

"E até hoje quem se lembra diz que não foi o caminhão, nem a curva fatal, e nem a explosão. Jimmy era fera demais pra vacilar assim, e o que dizem é que foi tudo por causa de um coração partido. [...]"

"Quando foi colocado na ambulância, o passageiro que estava a seu lado, o mecânico Rolf Wütherich, ouviu 'um grito suave emitido por Jimmy - a lamúria de um menino chamando sua mãe ou de um homem encarando Deus'."

James Byron Dean só tinha 24 anos.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Mutter.

Qual deve ser a sensação de ser uma pessoa que só sente satisfação no infortúnio de outra?
Qual é o gosto de só ser ver bem ao presenciar a falta de sucesso ou alegria de alguém?
A felicidade em gritar o tempo inteiro, a necessidade de ser desprezível a cada segundo.
Ser uma casca vazia, um cão sem dono, um animal desorientado.
Eu não aguento mais os gritos, o apelo, o infortúnio, o cinismo, a hipocrisia.
Não pode ser minha fonte de vida.
Não posso acreditar que já me alimentei daquele sangue.

Se pudesse, já a teria visto partir há tempos.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Chuva.

Eles olham pra ti como se te entendessem.
Eles não entendem nada.
Nem sabem teu nome. Ou teu signo. Ou o cheiro do teu perfume. Ou qual livro tu guarda debaixo do travesseiro. Nem sabem dos teus medos ou da ausência deles. Ou da tua banda favorita. Nem sabem quem é teu herói de quadrinhos favorito, ou que profissão tu escolheu seguir. Eles nem conhecem o verdadeiro som da tua voz.
Eles olham pra ti como se te entendessem. Mas ninguém entende.
Que teus gritos são pra dentro. Que tuas poças salgadas formadas pelo pranto se acumulam no interior da alma. Que não há som que cale teu grito interno. Ninguém entende que eu não posso controlar o tempo; e se o pudesse, não choveria tanto.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

(mu)deficiente.

- Muda.
- Como?
- É incapaz de falar.
- Mas é incapaz de mudar?
- Não, mudar ela pode.
- Então fala se quiser.
- Só não quer.
- Não quer o quê?
- Mudar.
- Porque é muda?
- Não, imutável.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Foco.

Compreendas que nem todo deslize é um fracasso; como quando omito algo de ti, e nem por isso fracasso em ser teu amante. Ou quando tu me perturbas a paz, e nem por isso fracassa em ser a melhor parte de mim. Nós somos parte de um todo, quando já é explícito para qualquer um que nos observa juntos, e a tua dor é a minha dor. Tua chateação é a minha chateação, e a minha tentativa de alegrá-la é mais que uma simples tentativa de alegrá-la: é trazer a paz pra ambos.

Tão estranhos são os amantes quando encontram suas almas completamente em sintonia; quando os sorrisos são dependentes um do outro; quando uma simples presença é capaz de mudar um dia. Quando a submissão deixa de ser um significado de desigualdade ou preconceito; quando um é submisso ao outro em harmonia.

Não entendas o tropeço como queda, meu bem, porque ninguém nasce sabendo tudo. Não subestime teu potencial de superação, ou de sucesso, ou qualquer potencial que tens; és maior que tudo o que te julgas incapaz. És a estrela que mais brilha no céu do meu espírito: e o meu sorriso mais sincero. E esse teu sucesso, o sucesso em me trazer à vida, o teu sucesso em me fazer feliz, o teu sucesso em tornar-me um homem pleno e nobre, jamais deve ser subestimado.
Feliz é o homem que faz feliz uma mulher. E feliz é a mulher que faz feliz um homem.
Felizes são ambos, quando vivem em harmonia plena.

O amor é tão bonito.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Mesmo diante do furacão: tu.

Num momento à parte da minha vida; num momento politizado da minha vida; num momento que traz à tona todo o revolto eu que sempre esteve ali, herdeiro paterno; num momento altruísta;
mas mesmo assim...
Num momento em que gritava, rouco. Caminhava, de pés calejados. Que refletia e pensava no futuro da nação, mas sabe o mais curioso (e não fico surpreso)? Enquanto gritava, olhando pra frente e torcendo para não ser atingido por balas ou granadas, suspirava, olhando para a esquerda e enxergando a Redenção, lembrando de ti. Ou no retorno, pela Cidade Baixa, quando meu coração batia mais forte a cada segundo, porque a cada segundo, lembrava de ti. Ou mesmo nas ruas do centro, ou em qualquer rua daquele lado de Porto Alegre. Porque tu não me sai da cabeça mesmo diante do furacão.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Madrugada.

Caminha-se sozinho sobre uma densa névoa que cobre o horizonte diante de mim.
Os outros olhos, as outras almas, não entendem a dor.
Os outros corpos, as outras músicas, não compreendem.
Para todos é drama; para todos é teatro; para todos é um motivo a mais para se rir da tragédia.
Estou cansado.
Sinceramente cansado dos risos que fazem pouco caso do que sou por dentro.
Temo por mim: e se eu jamais for entendido, e dessa alma, nada for compartilhado?

Tenta-se ser o belo romance. O belo romance é razão de piada.
Tentam cortar meu cordão umbilical que liga minh'alma - cinza - com meu corpo - fosco.
Ora, não mudem a essência de um homem!
Oh, quão egoístas sois!?

Eu.

Matam em mim, pouco a pouco o pranto,
mal sabem quão belo é, e é ali que vive o canto,
sob a armadura do homem a dor é o manto,
Antes, e agora, tanto...

Dói morrer a dor.

domingo, 19 de maio de 2013

Pra ti, que tem-me por dentro.


Já até abri a mão de meus vícios,
Não me sobram nem resquícios,
só razões pra te amar mais.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Eu.


Existe um império dentro de mim que quer ser explorado; de muralhas que querem ser derrubadas; de guardas que imploram por ser vencidos; de lares vazios que almejam ser habitados; de jardins que precisam ser regados; de água límpida que deve ser bebida; de boas intenções; de amor incomparável; de mistérios inexplorados. De um trono vazio e de um imperador exilado, aprisionado nas próprias masmorras por coisas ruins que até hoje não sabe explicar. Que precisa de alguém que o ajude a compreender.
Existe um oceano de coisas sobre mim que tu ainda não sabes, que eu ainda não sei. Existe um universo de espaços vazios dentro da minha alma esperando por serem preenchidos, existe um amor inexplorado sedendo por correspondência. Uma mão desocupada, esperando por um calor amante.
Existe uma música esperando um ouvinte. Uma tarde fria esperando teu calor. Existem medos que precisam ser vencidos. Existem problemas que precisam ser destruídos. Existe um amor que não pode amar sozinho.

Existe um eu que precisa de ti.

"Só eu sei há quanto tempo me vejo dando voltas e voltas preso no mesmo lugar."

Eu deveria ter muito mais pra escrever.
Escrever sobre a noite, sobre a vida, sobre o frio, sobre os sorrisos e sobre a chuva. Sobre ter 19 anos, sobre ser feliz ou não, sobre os Smiths, sobre relacionamento. Meu Deus, eu tenho tanto aqui dentro pra escrever aqui fora. Há muito esse blog deixou de ser minha crítica à humanidade pra se tornar meu diário público. E torço pra que ninguém mais o frequente.

Oi você, há quanto tempo.
Oi eu, há quanto tempo.
É a melancolia. Não-bem eu volto a mim.

quarta-feira, 8 de maio de 2013


As músicas dos Smiths, as que falam sobre miséria e tristeza, não cantam mais minha vida. Agora aquelas que falam sobre morrer agarrado a quem se quer tão bem, essas têm feito muito mais sentido pra mim.
Eu não encontrei; eu fui encontrado, e quando mais pensava em me perder.
Estranho o deserto da vida quando se está lado a lado com alguém. Nem medo eu sinto mais.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

"Quando se aprende a amar o mundo passa a ser seu."

Já me acostumei com a tua voz / com teu rosto e teu olhar / me partiu em dois / e procuro agora o que é minha metade. / Quando não estás aqui sinto falta de mim mesmo / e sinto falta do meu corpo junto ao teu. / Meu coração é tão tosco e tão pobre / não sabe ainda os caminhos do mundo. / Quando não estás aqui tenho medo de mim mesmo / e sinto falta do teu corpo junto ao meu. / Vem depressa pra mim que eu não sei esperar / já fizemos promessas demais / e já me acostumei com a tua voz / quando estou contigo estou em paz. / Quando não estás aqui meu espírito se perde, voa longe.
(longe...)

- Sete Cidades
(Legião Urbana)

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Eu.

Tu nem sabes da tempestade aqui dentro.
Tu nem sabes o quanto estás segura aí fora.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

"Se". [clichê]

 É ou foi?
Sou ou fui?
Sei-me ou soube-me?
Encontro-me ou encontrei-me?
Sozinho.

Sinto-me preso nessa energia estática que é a reclusão. Nesse calor frio que é trocar pessoas por palavras e peles por páginas. Como se fosse digno abandonar a prática da natureza humana para estuda-la na teoria. Como se fosse correto esquecer-se do mundo lá fora e ler sobre ele, como um ideal. É que o mundo, na prática, as coisas, as pessoas, os riscos, os sorrisos falsos, a facilidade para fazer o mal, tudo isso me apavora.
Então me escondi.

Então te achei.
Não, não te achei.
Por ti fui achado.

É, é por aí.
Então tu me achou, e nos perdemos juntos.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Ladrar dos cães.


Escuro. Suspeita. Sons estranhos pelo pátio.
Há ladrões no meu espaço.
Que entrem aqui e que me roubem tudo.
Que me roubem a vida, que me roubem o mundo.

O que eu perco?
Cães não ladram por nada.
Que interminável estrada...

quinta-feira, 11 de abril de 2013

"Prendia o choro e aguava o bom do amor."

Queria não cortejá-la, mas me é inevitável.
Queria não tentar olhá-la nos olhos ou desejar correr os dedos entre teus cabelos bagunçados pelo vento do fim de tarde e prendê-los detrás das tuas orelhas. É que venta muito e o vento ri de nós.
Queria não tocar sem querer a tua mão e querer segurá-la o resto da tarde.
Queria não contar o tempo esperando o tempo chegar.
Queria não pesar tanto.
Queria não ser um risco.
Queria ter certeza.
Queria não ter visto tuas lágrimas tão depressa.
Queria te fazer rir mais do que sou capaz.
Queria não ter mais esse cubo de gelo preso na garganta.
Queria não ser tão dramático.

Eu te trago flores todo entardecer.
Segura minha mão só essa noite.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Não sei por que é assim. Parecer estar caminhando sob essa neblina densa que esconde meus passos. Essa vida confusa com séries de desventuras e inversões. Onde se encontra alguém como tu gostarias de ter conhecido aos 16, mas hoje lhe é repulsivo. Onde se encontra outro alguém que é exatamente como tu gostarias de ter agora, mas esse alguém não pode ser seu. Mas os olhos não mentem. Não, não mentem nunca.

Sou um jovem velho.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Bocage riria.

Tentei me pintar um autorretrato e só consegui desenhar o que havia por dentro.
Desculpe-me Bocage se o acabei imitando em tudo, trocando apenas as características,
é que eu não sou bom com rimas, e meu forte nunca foi o verso.
Rimei, rimei, e não falei nada com nada.

Até de poesia estou mal-servido.
Enterrem-me.

Moi [2].

Um dia você acorda e percebe que tudo o que é é insatisfatório; vago, malfeito, mórbido e insuficiente.
Um livro rasgado, manchado de café ou perfume; uma poesia incompleta sempre em prosa. Um olhar ignorado, um cabelo desgrenhado e um rosto manchado pelo tempo e pelo pecado. Amaldiçoado, cômico, lacônico. Cabisbaixo, sem futuro, sem dinheiro. Pulmões negros e alma que se redesenha, sem nunca ter uma definição, sem nunca escolher um lado. Bifurcado e ignorável.

É tão fácil escrever sobre si mesmo, só dando sinônimos pras mesmas bobagens.
Só definindo a palavra "infeliz" em várias orações.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Misantropia. [2]

Tu com teus livros, tua boa música e teu conhecimento que progride.
Com teus planos de um futuro brilhante, com tua ambição de mudar as coisas e tua visão numérica por detrás destes óculos anacrônicos, ultrapassados. Tu com teu português formal, tua caligrafia fina, tua noção literária e histórica, musical e cinematográfica. Com teu conhecimento gramático (até parece) e com a tua sede de poder.
Tu que não sabe nada. Tu que não é ninguém.
Tu, que mal consegue olhar pra frente, já tem a coluna redesenhada numa curva de tanto andar cabisbaixo, e não tem as marcas de riso nos lábios.
Tu com tua solidão, eles, sem nada a oferecer, com a felicidade.

Narcisista sem ter do que se orgulhar.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Preciso dizer, do fundo do meu coração: eu me sentirei tão feliz por partir.

Probabilidade de morrer por serpentes venenosas: 1 em 1.874.034.
Probabilidade de morrer por acidente de trem: 1 em 156.169.
Probabilidade de morrer por inundação: 1 em 144.156.
Probabilidade de morrer por terremoto: 1 em 117.127.
Probabilidade de morrer por acidente de ônibus: 1 em 104.113.
Probabilidade de morrer atingido por um raio: 1 em 79.746.
Probabilidade de morrer por disparo acidental por arma de fogo: 1 em 5.134.
Probabilidade de morrer afogado: 1 entre 1.008.
Probabilidade de morrer por acidente de carro: 1 entre 237.
Probabilidade de morrer de câncer: 1 em 7.
Probabilidade de morrer por ataque do coração: 1 em 5.
Probabilidade de morrer: 1 em 1.

Pra morrer basta estar vivo.
Morramos sem medo.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

DeGramont & Milenka.

Escrevo porque preciso, não porque quero.
Escrevo por necessidade, não por capricho.
Escrevo pra mim mesmo, quando ninguém mais me suporta escutar.
Escrevo sobre mim, sobre nós, sobre ninguém em particular.
Sobre uma noite que pensei estar vazio.
Quando eu tinha cigarros mas não tinha fogo.
Quando eu via corpos mas nenhuma alma.
Escrevo sobre como me dói o peito todas as vezes que olho pro céu à noite. Sobre a dor. Escrevo sobre as gotas de chuva numa manhã fria de inverno. Sobre jaquetas e sobretudos, sobre botas e luvas. Lucky Strike e Marlboro. Morrissey e Curtis. Cazuza e Renato. Waters e Gilmour. Sobre como o outono me lembra os plátanos, e o inverno me lembra felicidade.
Escrevo sobre teus cabelos vermelhos. Sobre o sorriso que tu não tens, e sobre o quanto isso me encanta. Sobre o pouco caso que fazes de mim, e sobre o fato de eu saber que, no fundo, o que sinto é correspondido. Que tuas letras não mentem. Que a verdade transborda. Que o que é recíproco é nosso.
Escrevo às vezes só pra lembrar que existo. Só pra continuar existindo. Escrevo sobre partir, mas também sobre chegar.
Sobre nós dois, e sobre a França. Agora, nossa França.
Escrevo porque sou isso: letras estampadas, pregadas num pedaço de papel.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

"Moi".

Eu tenho esse problema.
Observo o tempo, conto segundos no relógio, ignoro coisas bonitas, odeio tanto o que não me convém.
Sempre em prosa, nunca em verso.
Eu tenho esse problema.
E o tempo não passa. Não tenho em quem cuspir isso tudo, e por engolir de volta, tudo queima por dentro.
Só lembranças atropelando meus ossos e músculos.
Só quis existir, mas por enxergar tudo, vi que nada existe.
Não consigo.
Queria, por vezes, a cegueira das coisas.

Blasé [vezes dois].

Que ouses querer-me como te quero: nem muito nem pouco.
Que ouses encontrar no vácuo de meus olhos o que sou capaz de encontrar no vácuo dos teus: abrigo.
E há na tua voz a falta de esperança e o descaso pela vida que vejo refletida na minha. O descaso pelos próprios pulmões, e mesmo quando sei que nada mais me resta, o que me sobram são palavras. E conversamos mesmo no silêncio.
Corro meus olhos amargurados pelos cachos vermelhos de teus cabelos que reluzem.
Suspiro, e me sinto, como sempre, num longo sonho.
Tão clichê. Tão blasé. Tão eu. Tão tu.
Suspiro, apalpo a jaqueta e não encontro meu isqueiro. Scheiße!
- Tu tens fogo?
- Sim.
Que sorte eu não ter um isqueiro!

Tinta escassa.

Procuro companhia da solidão numa silenciosa e vazia noite, onde o que mais grita são meus pensamentos. Procuro abrigo e força dentro de mim mesmo, ironizo e caçoo de minhas próprias dores. Penso nela.
Mal enxergo as palavras que escrevo numa máquina de escrever velha de tinta esgotada: como em minha vida, tudo são borrões ou esboços quase ilegíveis. Ninguém consegue ler, ninguém se dá ao trabalho de tentar entender, de tentar enxergar. Todos desistem antes de chegar à metade.
Quase sem caprichos, dominado pelo descaso alheio, e por estar descarregado, sem tinta e acumulando apatia e dores de cabeça, a solução mais simples é esquecer-me sobre as prateleiras de um velho porão.
Sou uma velha máquina de escrever, e nada em mim se vê além de infinitas ideias e possibilidades e situações e emoções e histórias antigas, presentes e futuras. Sou nada demais até que decida-se usar-me. Só basta que alguém ouse encontrar-me. E ficar.

sábado, 26 de janeiro de 2013

A vida está me matando.
Que irônico.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Vírus.

Senti algo podre e malcheiroso escalando-me a garganta. Coçava como se eu fosse alérgico, se movia como se tivesse centenas de pernas. Pigarreei e tossi, tentei cuspi-lo, mas quanto mais eu o tentava pôr para fora, mais ele se fixava no interior de minha boca. Parecia que tentar livrar-me dele só me tornava sua vítima. Eu era, de fato, alérgico à sua presença. Ele se fixou em minha língua e a amorteceu. Abriu espaço entre meus dentes e tomou seu lugar em meus lábios. Senti toda a minha região bucal amortecida, e aquilo dominou-me como uma bactéria domina um hospedeiro.
Aquilo fedia.
Aquilo em nada se parecia comigo.
Aquilo era falso.
Aquilo, meu Deus, era um sorriso.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Começo de ano.

Sentados ao chão, impacientes e embriagados pelo sono numa noite quente de verão em Porto Alegre, aguardando uma carona que nunca chega, vendo táxis chegando e partindo, pessoas embarcando e desembarcando, e nós dois aspirando o desgosto de saber que ninguém ali vale nada; um mendigo se aproxima. A pele escura, o rosto lustroso e suado, as vestes típicas. Ele pede um cigarro. Ofereço dois.
[obrigado] - Valeu!
Ele começa a falar. Dizeres sem substância de quem já teve o cérebro afetado demais pelo consumo exagerado de substâncias que o derreteriam. Eu cabisbaixo. Ele pára, olha para mim, e pela primeira vez numa noite inteira recheada de pessoas pela metade, algo racional é dito:
- Eu sou feio, eu sei que sou feio. Mas ele não é feio. - aponta para mim - ele não é feio. Mas ele se sente tão feio, mas tão feio por dentro, que faz eu sentir vergonha por me sentir feio por fora.

Não vou mentir que era mentira. Foi a maior verdade da noite.
Eu já tive mais pra dizer.
Eu já soube dizer mais.



Feliz ano novo.