É perigoso alimentar o ódio dessa forma; para um homem como eu. Para um animal como eu. Para um monstro - da escuridão e rutilância, como diriam os Anjos - como eu. Conquanto ao longo de minha vida jamais tenha conhecido criatura capaz de transformar concretamente minhas entranhas em verdadeira cólera ou de fazer com que minha mente chegasse ao ponto de arquitetar, de forma organizada e verdadeiramente pretendida, a agonia daquele a que me refiro como O Verme. Não daqueles pensamentos passageiros que se formula contra um irmão com quem se briga, ou contra um velho medíocre que rouba seu lugar na fila do banco ou com um velha de barbas que fala alto no corredor do interior do ônibus. Não daqueles pensamentos que esvanecem, evaporam, desintegram. É constante. E perigoso. É desejar o mal com tal força que acaba-se tranformando-o num projétil em alta velocidade. Em estopim sobre os barris de pólvora. Num câncer maligo. É a carne dilacerada e putrefada, é a necrose a corroer cada centímero do corpo.
Ah, se eu conseguisse frear esse desejo mórbido de destruí-lo. Se eu fosse capaz de suprimir de minha mente esses maus pensamentos que fazem de mim um animal raivoso. De mim um corroente concentrado. De mim um mal para mim mesmo.
A ânsia de vômito transfigurada em cólera.
Desculpe, Luther King, mas eu me permiti chegar tão baixo. Eu que jamais me permiti levar alguém tão a sério a ponto de odiá-lo. Eu que sempre preferi o desprezo. Eu que tinha insônia, e hoje não acordo mais.
E nas palavras de Schopenhauer, "não devemos mostrar a nossa cólera ou o nosso ódio senão por meio de atos. Os animais de sangue frio são os únicos que têm veneno." Feri-lo-ei com os venenos letais de cada ato que me é alcançável, se tornares a ousar aproximar-se por suspiros e súplicas do que não lhe mais diz respeito.
Renard dizia que um pouco de desprezo economiza bastante ódio. Mas cansei de ser econômico. Odiá-lo-ei descomedidamente, imensuravelmente, ininterruptamente.
Ah, perdoa-me o equilíbrio da alma, mas esse pedaço de mim precisa desse ódio pra existir!
Nenhum comentário:
Postar um comentário