quarta-feira, 24 de julho de 2013

Nascimento.

Gravata cuidadosamente passada; camisa branca fechada até o último botão; calças de cetim bem cortadas; cabelos penteado com gel. Os olhos tristes repousados no além. Os lábios cortados pelo frio. A configuração caricata do fracasso de uma vida inteira que poderia ter sido e não foi. O horizonte deformado de uma paisagem de prédios que se estendiam quilômetros pela frente e morriam à margem do rio; as montanhas disformes detrás de tudo. A barba rala sombreando-lhe o rosto. As mãos trêmulas.
Não beijara a garota no colégio.
Não dissera à jovem madura de bom gosto musical o quanto era interessado nela na faculdade.
Não movera os pés na pista de dança no casamento do irmão.
Abrira o guarda-chuva.
Escondera-se diante da tempestade.
Acendera o primeiro cigarro: gastou mais de cem pratas por mês pra sustentar o vício.
Aceitara o primeiro emprego.
Estabilizara-se no primeiro emprego.
Acomodara-se.
Sonhava em escrever romances; jamais terminou o primeiro.
Nunca desatara o nó de sua garganta.
Nunca nascera de verdade, por isso não morreria jamais.
Correu os olhos tristes pelo horizonte e viu o mundo se configurando quieto prédio abaixo. Lá de cima tudo era tão pequeno e calmo. Mesmo o vento era revitalizador. Respirou pela última vez. Optou por não fumar pela última vez. Jamais amara. Jamais sonhara. Jamais vivera. E agora, dando um passo à frente, vendo as pernas vacilarem e encontrarem o ar do alto daquele edifício, via o mundo se mover depressa pela primeira vez. O estômago não doera, e pudera respirar profundamente a única vez em sua vida. Viu o chão se aproximar, e em seguida, sem dor ou medo, nasceu.

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