Sentados ao chão, impacientes e embriagados pelo sono numa noite quente de verão em Porto Alegre, aguardando uma carona que nunca chega, vendo táxis chegando e partindo, pessoas embarcando e desembarcando, e nós dois aspirando o desgosto de saber que ninguém ali vale nada; um mendigo se aproxima. A pele escura, o rosto lustroso e suado, as vestes típicas. Ele pede um cigarro. Ofereço dois.
[obrigado] - Valeu!
Ele começa a falar. Dizeres sem substância de quem já teve o cérebro afetado demais pelo consumo exagerado de substâncias que o derreteriam. Eu cabisbaixo. Ele pára, olha para mim, e pela primeira vez numa noite inteira recheada de pessoas pela metade, algo racional é dito:
- Eu sou feio, eu sei que sou feio. Mas ele não é feio. - aponta para mim - ele não é feio. Mas ele se sente tão feio, mas tão feio por dentro, que faz eu sentir vergonha por me sentir feio por fora.
Não vou mentir que era mentira. Foi a maior verdade da noite.
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