Como dói a vida, como dói fracassar um dia após o outro e ter a face surrada diante de tais figuras que já deveriam ser autossuficientemente doridas. Como dói não ser nada diante dos olhos que deveriam julgá-lo tudo, e como doem os lábios cortados por isso. Como dói ser acusado de cada tropeço - admito: muitos em 20 míseros anos - e jamais receber incentivos devidos das pessoas que mais deveriam fazê-lo.
Como doem as flores de plástico, como doem os vasos de madeira.
Como dói encerrar ciclos sabendo que nada nessas paredes, até aqui, representou alguma coisa.
Eu te odeio.
Feliz Natal.
[revisited]
terça-feira, 24 de dezembro de 2013
Acho que meu pai - mesmo nunca tendo dito - jamais teve orgulho de mim.
Me desculpa, pai. Me desculpa por nunca ter-lhe dado motivos pra se orgulhar de mim, por nunca ter sido aprovado ou por nunca ter levado uma oportunidade adiante; por nunca ter sido o melhor competidor ou o de melhor caráter e fibra moral, ou por nunca ter sido um bom esportista ou o teu companheiro de noites de quarta-feira. Me desculpa por nunca ter conquistado nada e por nunca ter trazido título nenhum sob teu nome - e por nem mesmo querer levar o teu nome -, me desculpa por jamais ter te dado um grande e largo sorriso de orgulho por qualquer vitória que jamais tive, ou por nunca ter sido um vencedor. Me desculpa por usar próclise quando deveria usar ênclise, e me desculpa por não tentar corrigir isso.
Eu sempre quis ser escritor...
...mas escritores passam fome.
Me desculpa por cada palavra de desculpa, e por jamais me arrepender de nunca ter me arrependido. Me desculpa por ser a vergonha que sou, e por sofrer todas as noites por isso.
Eu ainda te amo, pai.
Eu te odeio, Angelita.
Eu sempre quis ser escritor...
...mas escritores passam fome.
Me desculpa por cada palavra de desculpa, e por jamais me arrepender de nunca ter me arrependido. Me desculpa por ser a vergonha que sou, e por sofrer todas as noites por isso.
Eu ainda te amo, pai.
Eu te odeio, Angelita.
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
Reconfigurando Ovídio.
Quando se vive à noite, escuridão é lar. As pupilas dilatam quase o tempo inteiro em que se existe, e o cheiro é de orvalho. Os diálogos são os pensamentos, que mesmo quando gritam são calados, e a boca que mais é capaz de gritar é a do mar, gritando suas juras ou injúrias pelo vento. Meu coração nunca é tão puro e sincero e cheio de verdades lindas e puras pra contar quanto é à noite. O problema é que à noite vivo sozinho, e não tenho ninguém com quem compartilhar os mais belos e sublimes e sinceros pensamentos que sou capaz de formular. E a pessoa que creio amar vive no paraíso de Hipnos enquanto mergulho, sem dormir, nas façanhas de Morfeu; por isso o Ovídio dentro de mim vive sozinho, ou deixa de herança, da noite pro dia, suas verdades mais belas. As verdades de amor. De vida. De sonho. De amor. De bem-aventurança. De esperança.
De amor.
Para Carine: todos os meus mais belos sonhos.
Mesmo abandonando-me Hipnos, serei teu Morfeu enquanto pudermos sustentar essa paixão mórbida.
Sou um rascunho: pelo jeito a mão tremia.
Meu erro é acreditar que o passado é retornável como embalagens plásticas de qualquer coisa, ou que sou reciclável como o papel, sendo que de papel só tenho a fragilidade: rasgável, amassável, dobrável, descartável. Onde me rabiscam e apagam, como se fosse possível apagar completamente os borrões escritos por tinta permanente. O meu maior erro é tentar apagar e redesenhar e tornar a apagar e reler e reescrever na mesma página, quando a próxima, em branco, é bem mais simples e convidativa para escrever um texto completamente novo, com novas estruturas e histórias que só dependem de minha boa vontade. Como o desenho de ti que tenho guardado na memória. Como todos os desenhos de flores que ainda pretendo te entregar. Não abusarei do teu entendimento, só entendas que estou dando o melhor de mim pra traçar linhas perfeitas nessa carta da vida, que já lhe foi entregue numa noite de maio.
E o teu maior erro é achar que não tenho cura.
(não desista de mim.)
domingo, 1 de dezembro de 2013
Racional como Byron.
É perigoso alimentar o ódio dessa forma; para um homem como eu. Para um animal como eu. Para um monstro - da escuridão e rutilância, como diriam os Anjos - como eu. Conquanto ao longo de minha vida jamais tenha conhecido criatura capaz de transformar concretamente minhas entranhas em verdadeira cólera ou de fazer com que minha mente chegasse ao ponto de arquitetar, de forma organizada e verdadeiramente pretendida, a agonia daquele a que me refiro como O Verme. Não daqueles pensamentos passageiros que se formula contra um irmão com quem se briga, ou contra um velho medíocre que rouba seu lugar na fila do banco ou com um velha de barbas que fala alto no corredor do interior do ônibus. Não daqueles pensamentos que esvanecem, evaporam, desintegram. É constante. E perigoso. É desejar o mal com tal força que acaba-se tranformando-o num projétil em alta velocidade. Em estopim sobre os barris de pólvora. Num câncer maligo. É a carne dilacerada e putrefada, é a necrose a corroer cada centímero do corpo.
Ah, se eu conseguisse frear esse desejo mórbido de destruí-lo. Se eu fosse capaz de suprimir de minha mente esses maus pensamentos que fazem de mim um animal raivoso. De mim um corroente concentrado. De mim um mal para mim mesmo.
A ânsia de vômito transfigurada em cólera.
Desculpe, Luther King, mas eu me permiti chegar tão baixo. Eu que jamais me permiti levar alguém tão a sério a ponto de odiá-lo. Eu que sempre preferi o desprezo. Eu que tinha insônia, e hoje não acordo mais.
E nas palavras de Schopenhauer, "não devemos mostrar a nossa cólera ou o nosso ódio senão por meio de atos. Os animais de sangue frio são os únicos que têm veneno." Feri-lo-ei com os venenos letais de cada ato que me é alcançável, se tornares a ousar aproximar-se por suspiros e súplicas do que não lhe mais diz respeito.
Renard dizia que um pouco de desprezo economiza bastante ódio. Mas cansei de ser econômico. Odiá-lo-ei descomedidamente, imensuravelmente, ininterruptamente.
Ah, perdoa-me o equilíbrio da alma, mas esse pedaço de mim precisa desse ódio pra existir!
Ah, se eu conseguisse frear esse desejo mórbido de destruí-lo. Se eu fosse capaz de suprimir de minha mente esses maus pensamentos que fazem de mim um animal raivoso. De mim um corroente concentrado. De mim um mal para mim mesmo.
A ânsia de vômito transfigurada em cólera.
Desculpe, Luther King, mas eu me permiti chegar tão baixo. Eu que jamais me permiti levar alguém tão a sério a ponto de odiá-lo. Eu que sempre preferi o desprezo. Eu que tinha insônia, e hoje não acordo mais.
E nas palavras de Schopenhauer, "não devemos mostrar a nossa cólera ou o nosso ódio senão por meio de atos. Os animais de sangue frio são os únicos que têm veneno." Feri-lo-ei com os venenos letais de cada ato que me é alcançável, se tornares a ousar aproximar-se por suspiros e súplicas do que não lhe mais diz respeito.
Renard dizia que um pouco de desprezo economiza bastante ódio. Mas cansei de ser econômico. Odiá-lo-ei descomedidamente, imensuravelmente, ininterruptamente.
Ah, perdoa-me o equilíbrio da alma, mas esse pedaço de mim precisa desse ódio pra existir!
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