quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Ode às Borboletas

És a síntese da esperança, o outono-inverno, o inverno-primavera, o mel e o âmbar; és os cachos de sol, louros a escorrer pela pele alva, e o vento fresco a beijar-me os lábios e o corpo. Um retrato falado de caminhos não trilhados, de segredos a desvendar e verdades que residem em ti.

Eros na carne e na pele. Philos no riso e no seguir. Quase Ágape, se me permitir chegar mais perto. Morfeu em peso, quando consigo fechar os olhos.

És a Torre, a Morte, a Roda da Fortuna. A bem-aventurança e, novamente, a esperança rica e una. Das vezes em que me perdi e perdi quase todo o ar, tive por certo um recomeço de ti que me fizesse ficar.

Dos dias dos últimos meses, és a manhã mais clara e doce.

Disseram-me pra ter esperanças de dias bons.

Não choveu hoje.



(Expecto Patronum).



"Olá".

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Spleen noturno.

O Romantismo está no intocável, no impenetrável. No chegar ao castelo, no conquistar o castelo, no entrar nos salões do castelo pela primeira vez. Possuí-lo mais que isso é ter sob domínio um empilhado insignificante de pedras e pessoas insossas para administrá-lo. É o trilhar o caminho, é mirar o horizonte; jamais chegar lá.
O Romantismo está no observar à distância e amar em silêncio; está em ver-se possuído pelo desejo e nunca possuir, de fato, o almejado objeto. É o platônico e inalcançado. O Romantismo está na utopia, é as montanhas, as nuvens e todo o abismo. É o Não-Ter. É o Querer-Mais. É o Não-Querer-Mais. O Romantismo está no adeus. Nos primeiros encontros. No escuro. No tomar posse.

Depois da posse, o parnasiano cuida do enjoo.
E se vomita.


"Adeus".

4:47 (Hutter).

- Gosto de olhar as tuas fotos e imaginar as histórias por detrás delas. São provavelmente muito menos interessantes do que eu consigo imaginar que são.

- E se forem muito mais interessantes do que você jamais será capaz de imaginar?

- Perspectiva.

- Então qual é a sua? Consegue imaginar boas histórias?

- Não tenho perspectiva pra isso.

- Por quê?

- Eu nunca fui feliz.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

"Advogados,

médicos,

bombeiros,

eles é que ficavam com a grana toda.

Escritores?
Escritores morriam de fome.
Escritores se suicidavam.
Escritores enlouqueciam."

(C. Bukowski)

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Fugata.

Tentei sair. Tentei enfrentar o mundo além do quarto, os olhares e propostas. As fugas e mentiras. Quase acreditei que gostava daquilo e cheguei a me convencer de que a liberdade estava do lado de fora. Músicas que eu odiava ouvir e conversas que eu forçava a funcionar. Pessoas mentindo pra pessoas que eram pessoas que diziam a verdade. Situações sem sequência e sequelas sintomáticas. Cobras sibilando, sussurrando suas bobagens. Tentei sair e fingir que era legal, mas Morrissey já falou sobre tentar sair antes, já havia me avisado como terminaria. E eu só encontro conforto e refúgio aqui: as quatro paredes, o monitor, o cheiro de sempre e as deliciosas canções. Uma caneca de qualquer coisa doce ou suave - não vou mentir que saboreio bebidas fortes na solidão de meu quarto - e imagens bonitas de admirar; livros que digam as verdades que quero ou que preciso ou que mereço ler. Todo um mundo de artificialidades muito mais real do que o que eu encontrei lá fora.

Pro inferno com o poliamor.
Pro inferno com a bigamia.
Pro inferno com a depravação.
Pro inferno com o instinto.

Os sabores de corpos me davam ânsia de vômito. O cheiro alheio me fazia querer voltar pra cá. É aqui onde pertenço e de onde jamais devia ter saído. E palavra por palavra me convenço de que, mesmo sem saber quem sou ou pra onde devo ir, sem jamais me sentir natural e autêntico em lugar algum, eu só serei capaz de descobrir aqui, sozinho comigo mesmo, ouvindo a Chet Baker ou Pink Floyd, propagandeando minha falsa cultura e praticando minha automasturbação intelectual. Só aqui posso ter alguma certeza ou as dúvidas certas. Ao menos comigo devo ser honesto. Mas longe dos olhares. Pelo menos hoje.

Amanhã, quem sabe?
Amanhã talvez eu queira te ver. Ou ver alguém.

"Adeus."

Curvas.

É aqui onde eu pertenço. Onde toda essa dor é real e onde qualquer cheiro ou vento um pouco mais frio me remete às dores absurdas da saudade. Eu pertenço onde nada faz sentido, onde me perco nas curvas e nenhuma floresta é acolhedora pela estrada.
É aqui onde eu pertenço, e de onde você jamais deve voltar. Você chegou lá, e eu choro lágrimas de alegria por não ter esperado por mim. Alegria por ter conseguido seguir adiante, por ter finalmente enxergado sentido nas coisas bonitas. Por ter desapegado. Por ter encontrado amparo. Por ter aprendido a sorrir de verdade. Obrigado por não ter me esperado, eu não seria mais feliz se o tivesse.
É aqui onde divergimos: onde você entra numa curva e encontra as luzes da cidade. Onde eu entro em outra curva e continuo sem encontrar nada.

How Soon Is Now?

There's a club, if you'd would like to go, you could meet somebody who really loves you.
So you go and you stand on your own. And you live on your own.

and you go home

and you cry

and you want

to die.