quarta-feira, 28 de maio de 2014

Para Deus com Desespero


Se o decepciono, ó Pai, é porque antes de tudo tomaste de mim o direito de ser pleno. É porque prematuramente me tomaste mais sorrisos que lágrimas, e nessa mesma prematura fase já conheço mais da velhice que da juventude. Se não desejas que, jovem e de cedo como sou me torne velho e alimento para os vermes, se não queres, meu Pai, que rico e de seda como me apresento não seja pobre e do algodão bruto dos vulgares... amado Deus... dá-me uma chance de ser feliz, e de dar felicidade àqueles que me guardam e cercam. Nada fiz, sei - pois a dor vem do berço - tão cedo, pra merecer tamanha dor, desespero e medo. Se cri em ti um dia, dá-me a chance e a razão de largar o calvário. Afasta-me o cálice como não afastaste de teu filho. Pai, não me deixa morrer. Não me deixa tirar de mim mesmo o direito de ver. Não cala minha alegria, não me tira o direito de ser. Perder por crer que...

...A culpa é tua, Deus dos tolos, por tomar de mim tudo o que quis e a claridade dos homens livre. Por prender-me aos grilhões da agonia e, impiedoso como és, Senhor dos escravos, arrastar os que amo comigo num precipício de solidão. Tudo o que sempre quis foi contagiar com alegria um mundo, mas tudo o que sempre tive foi um estupor imundo, fundo o perfuro da lâmina cruel. Não há céu. Arranco esse véu e grito: liberta-me ou jamais o amarei. Eu o prendo entre meus braços e não lhe dou o direito de partir enquanto não derramar sobre mim...


                                    ...a liberdade.

Nenhum comentário: