quarta-feira, 24 de julho de 2013

[é o estar-se preso por vontade]

Jamais duvide do muito amor que tive [ontem], tenho [hoje] e terei [amanhã] por você, conjugado em todos os tempos, sentido com todas as forças, superados por todas as batalhas [internas ou não]. Pois eu te quero pela manhã, e sinto a tua falta pela noite.

Você não sabe de todos os conjuntos de palavras que eu gostaria de casar nessas sentenças, mas da minha indisposição cerebral para veicular qualquer um deles. Eu durmo e quase sonho em pé, eu sonho e quase durmo em pé.

Tá frio demais aqui.

Quero teu corpo pra aquecer o meu.

Age Lossless.

Eu sou uma anomalia.
Não me julgue são e salvo, tampouco tente qualquer compreensão ou aproximação do meu alter ego.
Ele deve ser mantido lá, preso, acorrentado e amordaçado, e sendo eu incapaz de matá-lo, tento calá-lo com toda a força que me julgo capaz. Ele é o escuro e a sombra do que já fui e do pouco que sou. Ele é o ciúme e a inveja, a fome pela desgraça e a desgraça faminta. Ele é o sangue derramado de um oponente em potencial [ou não]. Ele é o fundo do fundo de meus olhos, e o ponto mais escuro também.
Ele não é bom. Ele não é justo. Ele não é compreensivo.
Ele não sou eu.

Não tenha medo de mim, mas não tente compreendê-lo.

Você já carregou outro alguém dentro de si por tanto tempo?

Nascimento.

Gravata cuidadosamente passada; camisa branca fechada até o último botão; calças de cetim bem cortadas; cabelos penteado com gel. Os olhos tristes repousados no além. Os lábios cortados pelo frio. A configuração caricata do fracasso de uma vida inteira que poderia ter sido e não foi. O horizonte deformado de uma paisagem de prédios que se estendiam quilômetros pela frente e morriam à margem do rio; as montanhas disformes detrás de tudo. A barba rala sombreando-lhe o rosto. As mãos trêmulas.
Não beijara a garota no colégio.
Não dissera à jovem madura de bom gosto musical o quanto era interessado nela na faculdade.
Não movera os pés na pista de dança no casamento do irmão.
Abrira o guarda-chuva.
Escondera-se diante da tempestade.
Acendera o primeiro cigarro: gastou mais de cem pratas por mês pra sustentar o vício.
Aceitara o primeiro emprego.
Estabilizara-se no primeiro emprego.
Acomodara-se.
Sonhava em escrever romances; jamais terminou o primeiro.
Nunca desatara o nó de sua garganta.
Nunca nascera de verdade, por isso não morreria jamais.
Correu os olhos tristes pelo horizonte e viu o mundo se configurando quieto prédio abaixo. Lá de cima tudo era tão pequeno e calmo. Mesmo o vento era revitalizador. Respirou pela última vez. Optou por não fumar pela última vez. Jamais amara. Jamais sonhara. Jamais vivera. E agora, dando um passo à frente, vendo as pernas vacilarem e encontrarem o ar do alto daquele edifício, via o mundo se mover depressa pela primeira vez. O estômago não doera, e pudera respirar profundamente a única vez em sua vida. Viu o chão se aproximar, e em seguida, sem dor ou medo, nasceu.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Schuldig.

Assinado meu atestado de fracasso, ando pé ante pé pra não acordar a má sorte, que já estava à espreita muito antes de eu sabê-la viva. Entendidos meus termos de marcado pelo agouro, torço manhã após manhã para que, ao finar do dia, eu guarde um sorriso no peito, e não outra poça de lágrimas a gelar-me a alma.
Então faço planos, marco horários, risco datas no calendário mental, e torço com a cabeça erguida para que, dessa vez, cada segundo valha a pena. O penar não é válido, e sou inimigo de todos os relógios. E que mal eu fiz para que se fizesse de mim semelhante chacota diante da sorte? Não programei corretamente o horário mental? Não risquei o calendário no dia certo? Não corri a plenos pulmões para chegar a tempo de ver teu sorriso feito diante de teu desejo de assistir à película de teu ídolo? O que fiz? O que me faltou? Deveria ter corrido mais? Deveria ter esmurrado algum responsável pela ausência de tempo?
Não há culpa em ser marcado pela sorte; sou o esquerdo [canhoto, é verdade], escolhido pelo anjo torto de Drummond a ser, como ele, gauche. Só quero doar a ti toda a fortuna que ainda me existe e que caiba em minha sorte ter.

É só pra isso que ainda vivo. Fora o viver, só existi, desde sempre.

Queira-me bem; só dessa vez.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Sobre amores e cubos.

Talvez eu não precise mais sustentar essas conversas desconfortáveis, nas quais finjo ser sociável e compreensivo, nas quais forço uma graça que não possuo e escuto fatos que não tenho o interesse de ouvir; e se o fiz no passado, se procurava dar e receber atenção de terceiros irrelevantes e me colocava a par de conversas insignificantes foi pra me sentir mais humano, pra me sentir parte da realidade social ao meu redor, pra não me julgar um completo artefato de pedra que milagrosamente é capaz de se mover e criar pensamento. Talvez eu já tenha adquirido nos meus dias presentes os elementos necessários e suficientes pra fazer de mim um ser completo. Talvez eu não precise de mais pessoas do que já tenho, nem de mais risadas forçadas, quando já sou capaz de sorrir de verdade. Eu tenho tudo o que preciso. Eu tenho um cubo, e eu tenho amor.

Que mais preciso?

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Wahrheit.

"Eu acho que está escuro e parece que vai chover" - você disse.
"E o vento está soprando como se fosse o fim do mundo" - você disse.
"E está tão frio, é gelado como se você estivesse morto".
E então você sorriu por um segundo.

"Eu acho que estou velha e estou sentindo dor" - você disse.
"E está tudo acabando como se fosse o fim do mundo" - você disse.
"E está tão frio, é gelado como se você estivesse morto".
E então você sorriu por um segundo.

Às vezes você me faz sentir como se eu vivesse na beira do mundo. Como se eu vivesse na beira do mundo.
"É simplesmente o jeito que sorrio" - você disse.

Plainsong - The Cure

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Te encontro do outro lado, Jimmy.

"E até hoje quem se lembra diz que não foi o caminhão, nem a curva fatal, e nem a explosão. Jimmy era fera demais pra vacilar assim, e o que dizem é que foi tudo por causa de um coração partido. [...]"

"Quando foi colocado na ambulância, o passageiro que estava a seu lado, o mecânico Rolf Wütherich, ouviu 'um grito suave emitido por Jimmy - a lamúria de um menino chamando sua mãe ou de um homem encarando Deus'."

James Byron Dean só tinha 24 anos.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Mutter.

Qual deve ser a sensação de ser uma pessoa que só sente satisfação no infortúnio de outra?
Qual é o gosto de só ser ver bem ao presenciar a falta de sucesso ou alegria de alguém?
A felicidade em gritar o tempo inteiro, a necessidade de ser desprezível a cada segundo.
Ser uma casca vazia, um cão sem dono, um animal desorientado.
Eu não aguento mais os gritos, o apelo, o infortúnio, o cinismo, a hipocrisia.
Não pode ser minha fonte de vida.
Não posso acreditar que já me alimentei daquele sangue.

Se pudesse, já a teria visto partir há tempos.