domingo, 30 de setembro de 2012

Sturm (Melodia em Si menor).

Como se eu pudesse salvá-la, eu tento. Mergulho e volto trazendo-a pelos braços, conduzindo-a, fazendo-me de bote e carregando-a nas minhas costas. Como se eu pudesse salvá-la, sigo a nado em mar aberto buscando fuga, sugando todo o ar que posso e me esquivando das criaturas marinhas que mostram suas presas, seus tamanhos descomunais, e tentam me arrastar para o fundo. Para o ponto mais fundo. E volto, ela nas costas, recobrando a consciência. Estou trêmulo, os dedos enrugados, já há mais de um ano em mar aberto. Tento gritar: "homem ao mar, homem ao mar!" Mas toda a Terra se cala diante de mim, como em Habacuque, a diferença é que não sou o Senhor, e não estou em Seu Santo Templo. Sou só mais um nadando pra salvar-se e para salvar um corpo e uma alma sem salvação. Não acredito num Senhor nem num Santo Templo nem num silêncio respeitoso que se faz. Acredito em mim, nos meus dedos enrugados, na minha falta de ar e no quase-cadáver que trago às costas. Não sei da fé que tenho de salvá-la, mas aos poucos ela escorrega. Sou só mais um homem ao mar, rodeado de feras marinhas, de um vasto oceano infindável e de um sonho inatingível de salvação, de terra firme. Se soltá-la, posso nadar até a costa. Então me pergunto por que estou lutando para salvar uma alma morta. A solto e nado. Se ela afunda ou não, não posso mergulhar para saber. Não quero mergulhar para saber. Homem ao mar! Homem ao mar! Merda, eu mergulho. O mundo não sabe, mas eu sempre morri de medo do mar.

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