Foi um filtro cultural o que me ocorreu.
Eu ouvia Simon & Garfunkel e estudava o bloco de Língua Portuguesa no meu refúgio, meu quarto, meus livros, meus cheiros. Aqui eu estava salvo, aqui eu era livre, aqui era tudo belo e tudo meu. Meu pequeno castelo de grandezas inestimáveis. Quando ouço a voz de minha mãe me chamar no outro quarto, o seu quarto. Quando o adentro me sinto deslocado; ela assiste a um dos famosos programas do famoso domingo da televisão brasileira. Um verme subcultural cantando funk - gostaria de nunca ter usado essa palavra em nenhum de meus textos, mas vamos lá -, seu boné, suas roupas, suas correntes, as mulheres das quais precisa ao seu redor para se auto-afirmar como homem. E cantava - não que aquilo seja considerado música -, e ria; minha mãe entretida com aquilo, assistindo àquele programa que nada mais era que um mecanismo de sucção de conteúdo e conversão à total falta do mesmo. Então eu me viro, atravesso a sala de estar e, no momento em que cruzo a porta de meu quarto e a fecho atrás de mim, no momento em que ouço novamente Simon & Garfunkel - a verdadeira música! A melodia! O conteúdo! -, no momento em que vejo meus livros sobre a estante e o bloco de Língua Portuguesa estendido sobre a cama, no momento em que vejo que aquilo tudo sou eu, eu sorrio, eu suspiro, eu agradeço.
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