domingo, 30 de setembro de 2012

Fato que merece relato.

Foi um filtro cultural o que me ocorreu.
Eu ouvia Simon & Garfunkel e estudava o bloco de Língua Portuguesa no meu refúgio, meu quarto, meus livros, meus cheiros. Aqui eu estava salvo, aqui eu era livre, aqui era tudo belo e tudo meu. Meu pequeno castelo de grandezas inestimáveis. Quando ouço a voz de minha mãe me chamar no outro quarto, o seu quarto. Quando o adentro me sinto deslocado; ela assiste a um dos famosos programas do famoso domingo da televisão brasileira. Um verme subcultural cantando funk - gostaria de nunca ter usado essa palavra em nenhum de meus textos, mas vamos lá -, seu boné, suas roupas, suas correntes, as mulheres das quais precisa ao seu redor para se auto-afirmar como homem. E cantava - não que aquilo seja considerado música -, e ria; minha mãe entretida com aquilo, assistindo àquele programa que nada mais era que um mecanismo de sucção de conteúdo e conversão à total falta do mesmo. Então eu me viro, atravesso a sala de estar e, no momento em que cruzo a porta de meu quarto e a fecho atrás de mim, no momento em que ouço novamente Simon & Garfunkel - a verdadeira música! A melodia! O conteúdo! -, no momento em que vejo meus livros sobre a estante e o bloco de Língua Portuguesa estendido sobre a cama, no momento em que vejo que aquilo tudo sou eu, eu sorrio, eu suspiro, eu agradeço.

Sturm (Melodia em Si menor).

Como se eu pudesse salvá-la, eu tento. Mergulho e volto trazendo-a pelos braços, conduzindo-a, fazendo-me de bote e carregando-a nas minhas costas. Como se eu pudesse salvá-la, sigo a nado em mar aberto buscando fuga, sugando todo o ar que posso e me esquivando das criaturas marinhas que mostram suas presas, seus tamanhos descomunais, e tentam me arrastar para o fundo. Para o ponto mais fundo. E volto, ela nas costas, recobrando a consciência. Estou trêmulo, os dedos enrugados, já há mais de um ano em mar aberto. Tento gritar: "homem ao mar, homem ao mar!" Mas toda a Terra se cala diante de mim, como em Habacuque, a diferença é que não sou o Senhor, e não estou em Seu Santo Templo. Sou só mais um nadando pra salvar-se e para salvar um corpo e uma alma sem salvação. Não acredito num Senhor nem num Santo Templo nem num silêncio respeitoso que se faz. Acredito em mim, nos meus dedos enrugados, na minha falta de ar e no quase-cadáver que trago às costas. Não sei da fé que tenho de salvá-la, mas aos poucos ela escorrega. Sou só mais um homem ao mar, rodeado de feras marinhas, de um vasto oceano infindável e de um sonho inatingível de salvação, de terra firme. Se soltá-la, posso nadar até a costa. Então me pergunto por que estou lutando para salvar uma alma morta. A solto e nado. Se ela afunda ou não, não posso mergulhar para saber. Não quero mergulhar para saber. Homem ao mar! Homem ao mar! Merda, eu mergulho. O mundo não sabe, mas eu sempre morri de medo do mar.

Misantropia.

Eu invado o ambiente odoroso, fétido do transporte público, dos semblantes comumente repulsivos, e percebo o quanto os odeio. Eu olho para os rostos dos outros passageiros com ligeira vontade de vomitar. Suas mentes vazias, sua falta de perspectiva, sua facilidade de aceitação, seu comodismo. Então me escondo entre eles e procuro fugir dessa realidade através da música, como um isolante social em meus ouvidos, fecho os olhos, e fujo. Mal posso ouvir suas asneiras alheias, mas ainda posso sentir seu cheiro. E como os odeio. Até aquelas de belos rostos e belas curvas; sei que elas têm ânus e intestinos e fezes e mau-hálito, e quando abrem a boca arrotam suas futilidades costumeiras. - Sinto o desespero, sinto vontade de fugir, de me esconder de tudo e de todos e de lá ficar, com meus cheiros e livros e vozes e músicas -. Eles se esfregam, se arrastam, transmitem sua podridão sobre minhas roupas. Parece que suas palavras fétidas tomam forma física e sujam meu corpo. Respiro aquele ar de gente. O ar que eles soltam. Desejo que o ônibus bata e eu seja o único sobrevivente. Quero correr, quero sair, mas amanhã tem mais, e depois de amanhã também, e depois também. Locomovo-me pelo corredor interno rumo à saída, aqueles olhares me penetrando, eu fugindo de todas as formas possíveis. Saio e respiro o ar (não tão) puro da rua. Sobrevivi. Invado o ar mais puro que posso encontrar - o de minha própria casa - e me encerro sob o chuveiro, como se limpasse todas as bactérias de ignorância que se hospedaram nessa longa viagem. Eles nem sabem, mas os mato todos os dias em pensamento.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Imagine eu, aos 18, falando de infinitude.
Isso tá errado. Certo seria ignorar-me a mim mesmo.

sábado, 22 de setembro de 2012

Gostaria de ter todos os amigos por perto, todas as alegrias de volta, toda a felicidade que nunca tive. Gostaria de ter eterno inverno, intervalos de chuva de gelo, um carro, um belo sorriso, melhores chances. Gostaria de poder sorrir, sorrir, sorrir. Gostaria de me mostrar menos desesperado, amargurado, desorientado e consumido. Mais inverno. A chance de ser feliz.
Não sou. Não sou. Não sou.
Merda.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Melpômene (melodia em Fa).

Não há sentido em manter o passado exposto como se fosse algo válido.
A folha seca torna-se miúdos na mão que a aperta. Sem afagos. Sem delongas. Sem beleza. Só seca e morre.

Essa história chegou ao fim.