quarta-feira, 8 de junho de 2011

sobre a vida

Acordo, quero continuar deitado mas levanto.
Tomo meu Nescau diário, uma torrada, lavo
o rosto, arrumo o cabelo e saio de casa. Escola.
Os mesmos rostos, o mesmo cansaço, o mesmo
sono, as mesmas obrigações. Recreio, ok, às
vezes é legal. Saio da escola, chego em casa,
checo tudo o que tenho pra checar aqui, e tenho
a sensação de que o dia ainda nem começou. Na
verdade ele já está acabando. Na verdade não
é nem segunda-feira, é sexta. Onde foi parar
o sábado? Já é noite de domingo. Onde foi
parar a porra da tarde de domingo? Espere,
é manhã de segunda, e essa demora. Todo dia
pensando na mesma coisa, as mesmas coisas,
as mesmas preocupações, planos, sonhos, cheiros,
roupas, lugares. O cérebro já está no piloto
automático. Já faz as funções sem nem eu querer.
Já vai automaticamente para os mesmos cômodos,
dá oi automaticamente para as mesmas pessoas.
Mais tarde nem vou lembrar que as vi, porque não
fui eu, foi meu cérebro. Já é quarta, temos
matemática, droga. É sexta, yeah! Amanhã será
um fim-de-semana e tanto! Não foi. Dormi, acordei,
dormi, acordei, é segunda. Tudo de novo. Igual.
Igual. Igual. Se alimentando de esperanças que só
lhe deixam na vontade. Você já tem dezessete anos,
você já tem barba, e parece que há poucos dias
brincava de Frodo e Sam com seu primo. De Age
e Corvo com ele. Parece que ontem ia à casa dele
brincar de massinha de modelar, mas veja, ele se
mudou e te esqueceu, e você nem dá falta. Você
já está no último ano do Ensino Médio, vai se formar,
e não vai lembrar de mais nada. Vai fazer alguma coisa
depois, estudar mais ou começar a trabalhar. E pra
quê? E os seus sonhos? Ficaram na adolescência. Você
vai rir de si mesmo por isso. Por sonhar isso. Você
já tem dezessete anos e ainda sonha em ser um rockstar,
alguém famoso, alguém de quem as pessoas vão se
lembrar. Já tem barba e espinhas que acha que vão
sumir, mas só vão deixar cicatrizes. Cicatrizes que vão
ficar para sempre, como todo o resto, e você não vai
conseguir tirar porque não vai ter dinheiro. Veja só,
você já tem trinta anos e os dias ainda passam como
segundos e as semanas como dias. Tem um carro
semi-novo que ainda está parcelando. Não casou
com o amor de sua vida. Na verdade ela tem um
português horroroso e assiste à novela; na verdade
ela só reclama, e aquela primeira impressão já se foi
há muito tempo. Ela não gosta de ler, nem de música
boa, nem de filmes bons, nem é aquela que você
conheceu quando era adolescente, aquela sim, com
aquela você deveria ter se casado, mas ela não lhe
quis mais, sabe-se-lá por quê. Ela era perfeita,
e você, com trinta anos, barba por fazer, rugas
e mais marcas do estresse, ainda lembra dela, e
lembra como podia ter sido diferente. Acorda pela
manhã querendo continuar deitado e toma um café,
come talvez um ovo frito, e vai trabalhar. Agora é
trabalhar. Ainda vê mesmas pessoas, a segunda-feira
ainda é a mais lenta, e a semana ainda voa.
Você tem oitenta anos. Olha pra trás. Viveu o quê?
Você está acabado, meu amigo. Morra logo.
Você morre só aos noventa, só porque a vida é
filha da puta e quis te torrar o saco por mais dez anos.
Morto, você descansa. Morto, velho.

Não, esse não é o meu futuro, não, esse não é o meu
presente. Eu vou casar com o amor da minha vida,
vou morar na casa dos meus sonhos com o emprego
dos meus sonhos. Tenho dezessete anos, acredito no
amor e acredito, pelo menos por enquanto, naquela
bobagem de que se acredita, vai dar certo. Eu acredito.
E você?

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