domingo, 29 de novembro de 2015

"O primeiro me chegou como quem vem do florista: trouxe um bicho de pelúcia, trouxe um broche de ametista. Me contou suas viagens e as vantagens que ele tinha, me mostrou o seu relógio; me chamava de rainha. Me encontrou tão desarmada, que tocou meu coração, mas não me negava nada, e, assustada, eu disse "não".

O segundo me chegou como quem chega do bar: trouxe um litro de aguardente tão amarga de tragar. Indagou o meu passado e cheirou minha comida, vasculhou minha gaveta; me chamava de perdida. Me encontrou tão desarmada, que arranhou meu coração, mas não me entregava nada, e, assustada, eu disse "não".

O terceiro me chegou como quem chega do nada: ele não me trouxe nada, também nada perguntou. Mal sei como ele se chama, mas entendo o que ele quer! Se deitou na minha cama e me chama de mulher. Foi chegando sorrateiro e antes que eu dissesse não, se instalou feito um posseiro dentro do meu coração."

(Chico Buarque)

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