segunda-feira, 26 de março de 2012

Sobre a dor.

Não é daquelas dores fortes; não sempre, mas é constante. Às vezes é forte, e te domina e te laça e te deixa sem reação diante das outras coisas. Tu fica sem ar, perde teu sono. Perde a vontade de fazer qualquer coisa e não consegue pensar em nada que te possa ser útil.
E às vezes - e geralmente - é fraquinha, daquelas que, fazendo qualquer outra coisa, tu consegue esquecer, disfarçar, fingir que nem existe. Mas ela tá ali, e de tempo em tempo te cutuca, te espeta como uma agulha, vai cavando bem devagar orifícios na tua alma, na tua carne, no teu coração. Ela é bem pior do que a forte, porque a forte vem e te tira tudo na hora, te dá na cara e te mostra que tá ali. Quando acaba demora pra voltar. Mas a fraca... ela vai aos pouquinhos, sempre, tirando de tudo um pouco.
Dói o tempo inteiro, mesmo com disfarce, mesmo com distração, mesmo com uma peneira pra tapar o sol. Ele ainda queima. Aí tu aprende a anestesiar.
Acha que vai parar de doer, mas aí tu para de sentir tudo. E parar de sentir tudo dói também. Dói de outro jeito, com outras fronteiras e outras formas de expressar essa dor nova; e tu percebe que tá aprendendo coisas novas sobre a dor. E a dor é tua maior fonte de aprendizado.
E ela nunca pára.
Nunca pára.
E tudo te lembra de lembrar dela. Da dor.
E ela nunca pára.
Tu te vê cheio de buracos, hematomas, cicatrizes, e o corpo todo dormente por uma anestesia geral de sensações. E dói ainda, mesmo assim, cada espaço perfurado, agredido, cicatrizado e anestesiado. A diferença é que agora não há ostentação, e tu não sente mais nada direto. E vê que tudo esfriou.
E ela nunca pára... nunca pára... nunca...

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