segunda-feira, 19 de março de 2012

Rosa Mística.

Num temor permanente passou a olhar para o ventre, a apalpá-lo, para ver se ele já começava a crescer. E, quando Pedro voltou, uma noite ela saiu da cama sem ruído - o ar estava frio, o capim úmido do sereno, o céu muito alto -, foi até a barraca do índio, contou-lhe que ia ter um filho e ficou ofegante à espera de uma resposta. Houve um curto silêncio, ao cabo do qual Pedro murmurou:
- Mui lindo.
De repente Ana desatou a chorar. Estavam ambos sentados no chão lado a lado. Pedro enlaçou-a com os braços, estreitou-a contra si e as lágrimas da rapariga rolaram-lhe mornas pelo peito. Ana sentia as carnes elásticas e quentes do homem, e o bater regular de seu coração. Chorou livremente por algum tempo. Pedro nada dizia, limitou-se a acariciar-lhe os cabelos. E, quando ela parou de chorar, pôs-lhe a mão espalmada sobre o ventre e sussurrou:
- Rosa mística.

[...]

- Pedro, vamos embora daqui!
Ele ficou em silêncio. Um quero-quero guinchou, e sua voz metálica espraiou-se na noite quieta.
- Vamos, Pedro!
Pedro sacudiu a cabeça.
- Demasiado tarde.
Ana não entendeu bem o sentido daquelas palavras, mas, como o índio sacudisse a cabeça, ela viu que ele dizia não, que não.
- Mas por quê? Por quê? Se meu pai e meus irmãos descobrem, eles nos matam. Vamos embora.
- Demasiado tarde.
- Que é que vamos fazer então?
- Demasiado tarde. Voy morrer.
- Pedro!
- Eu vi... vi quando dois hombres enterraram mi cuerpo cerca dum árbol. Demasiado tarde.
- Como?
- Dois hombres. - murmurava Pedro - Mi cuerpo morto... cerca dum árbol.
- Um sonho?
- No. Eu vi.
- Mas como?
- Demasiado tarde.
Ana agarrou os ombros do índio e sacudiu-o.
- Então foge sozinho.
- Demasiado tarde.
- Foge, Pedro. Foge. Não é tarde, não. Depois nos encontramos... em qualquer lugar.
Parou, sem fôlego. Pedro sorriu e murmurou:
- Rosa mística.

[...]

Um dia, olhando o bordado branco que a espuma do sabão fazia na água, tinha a sensação de que Pedro nunca havia existido, e que tudo o que acontecera não passara dum pesadelo. Mas nesse mesmo instante o filho começou a mexer-se em suas entranhas e ela começou a brincar com uma idéia que dali por diante lhe daria a coragem necessária para enfrentar os momentos duros que estavam para vir: Ela trazia Pedro dentro de si. Pedro ia nascer de novo e portanto tudo estava bem e o mundo no fim de contas não era tão mal.

"Rosa Mística".

O Tempo e o Vento [parte 1] - O Continente vol. 1 - capítulo 4 - Ana Terra.
Da obra imortal de Érico Veríssimo.

Nenhum comentário: