
O guri nasceu nos arredores de Ilha Bela, em São Paulo.
Bem longe, pra vir a pé. Lá não é frio nem é belo. Não do
jeito que ele gosta. Lá é praia, é quente, é azul e amarelo
com coqueiros e vento abafado. Era "menino" quando
nasceu. Veio a ser "guri" não muito tempo depois. Viajou
e ainda nem sabia falar. O pai era paulista, também. O pai
nasceu e se criou lá, no interior. A mãe era gaúcha,
o irmão mais velho também.
O guri aprendeu a andar, falar e viver no sul. No sul
é frio e é belo. No sul tem estâncias, vento frio, vento
minuano que só tem no sul. No sul é verde, azul, branco.
Do jeito que ele gosta.
O guri virou rapaz. Maragato, como se diz. Aprendeu
a amar sua pátria. Milongas, churrasco, mate amargo,
o frio que mais ama. O frio que é o que mais ama.
Que foi aqui que tudo nela fez com que o corpo dele
se congelasse. Que foi aqui que a voz dela paralisou
a alma dele. Que foi aqui que o jeito frio - frio, como
ele ama que seja - dela fez seu coração parar. Ele
a amou logo em seguida.
Nasceu lá, respirou a primeira vez lá, caminhou por lá,
com o pai de lá e a família vivendo lá, mas veio pra cá.
Aprendeu a viver aqui. Cresceu aqui. Se apaixonou por aqui.
E conheceu ela aqui. De tão longe, nos lugares quentes,
veio pra se apaixonar aqui, num dos pontos mais frios do país.
Caxias do Sul é frio. E é onde ela mora.