quarta-feira, 28 de março de 2012

Dizem que quando o amor acaba, o que sobra dele é a falta que ele faz.

Dia após dia, um a repetição do outro, um tão amargo quanto o outro, e se me perguntam o porquê dessa dor sem rosto, não sei dizer exatamente. Me falta alguma coisa. Me faltam sorrisos. Me faltam razões. Me faltam motivos. Me faltam noites de sono e risadas e vírgulas e sentidos e todo aquele resto de besteira que as pessoas julgam necessário pra viver feliz de verdade.
"Reciprocidade" e "felicidade" são palavras que me dão medo.
É que a gente tem medo do que não conhece.
E caras como eu não morrem nunca.
Esse é o maior problema, quando percebo que não tenho medo de morrer, mas tenho medo de viver. De acordar no outro dia e ver o dia se repetir.
Pelo menos tá frio hoje.

O acidente.

Eu gastei meu tempo, gastei minha força, gastei meu dinheiro, gastei meu ar. Droga, gastei meu ar. Gastei meus cigarros, gastei minha fé, gastei minha saliva, gastei meu inverno. Droga, meu inverno! Gastei esperança, gastei esforços, gastei noites, gastei memórias, gastei espaços em branco preenchendo com cinza, gastei felicidade, droga, essa eu nunca tive.
Gastei até o que eu não tinha.
Querendo ter.
E eu piso no freio... mas o carro não pára.
Nunca pára.

"La vita".

segunda-feira, 26 de março de 2012

"Lá pode ter um novo amor pra eu viver, quem sabe uma nova
dor pra eu sentir, a droga certa pra fazer te esquecer, e apagar
a tua marca de mim. Tudo pode estar lá, e eu aqui."

Lá - Visconde

[sem nome]

- Como vais?
- Bem, e tu?
- Na medida do possível, hehe.
- Por quê?
- Tu sabes... a vida.
- Tu tem dito muito isso ultimamente.
- É. Define bem tudo.
- Acho que sim.

(silêncio)

- Não. Eu menti.
- Sobre o quê?
- Sobre estar bem.
- É ela?
- Sim.
- Só ela?
- Tudo.
- Tudo o quê?
- A vida.

Sobre a dor.

Não é daquelas dores fortes; não sempre, mas é constante. Às vezes é forte, e te domina e te laça e te deixa sem reação diante das outras coisas. Tu fica sem ar, perde teu sono. Perde a vontade de fazer qualquer coisa e não consegue pensar em nada que te possa ser útil.
E às vezes - e geralmente - é fraquinha, daquelas que, fazendo qualquer outra coisa, tu consegue esquecer, disfarçar, fingir que nem existe. Mas ela tá ali, e de tempo em tempo te cutuca, te espeta como uma agulha, vai cavando bem devagar orifícios na tua alma, na tua carne, no teu coração. Ela é bem pior do que a forte, porque a forte vem e te tira tudo na hora, te dá na cara e te mostra que tá ali. Quando acaba demora pra voltar. Mas a fraca... ela vai aos pouquinhos, sempre, tirando de tudo um pouco.
Dói o tempo inteiro, mesmo com disfarce, mesmo com distração, mesmo com uma peneira pra tapar o sol. Ele ainda queima. Aí tu aprende a anestesiar.
Acha que vai parar de doer, mas aí tu para de sentir tudo. E parar de sentir tudo dói também. Dói de outro jeito, com outras fronteiras e outras formas de expressar essa dor nova; e tu percebe que tá aprendendo coisas novas sobre a dor. E a dor é tua maior fonte de aprendizado.
E ela nunca pára.
Nunca pára.
E tudo te lembra de lembrar dela. Da dor.
E ela nunca pára.
Tu te vê cheio de buracos, hematomas, cicatrizes, e o corpo todo dormente por uma anestesia geral de sensações. E dói ainda, mesmo assim, cada espaço perfurado, agredido, cicatrizado e anestesiado. A diferença é que agora não há ostentação, e tu não sente mais nada direto. E vê que tudo esfriou.
E ela nunca pára... nunca pára... nunca...

segunda-feira, 19 de março de 2012

Rosa Mística.

Num temor permanente passou a olhar para o ventre, a apalpá-lo, para ver se ele já começava a crescer. E, quando Pedro voltou, uma noite ela saiu da cama sem ruído - o ar estava frio, o capim úmido do sereno, o céu muito alto -, foi até a barraca do índio, contou-lhe que ia ter um filho e ficou ofegante à espera de uma resposta. Houve um curto silêncio, ao cabo do qual Pedro murmurou:
- Mui lindo.
De repente Ana desatou a chorar. Estavam ambos sentados no chão lado a lado. Pedro enlaçou-a com os braços, estreitou-a contra si e as lágrimas da rapariga rolaram-lhe mornas pelo peito. Ana sentia as carnes elásticas e quentes do homem, e o bater regular de seu coração. Chorou livremente por algum tempo. Pedro nada dizia, limitou-se a acariciar-lhe os cabelos. E, quando ela parou de chorar, pôs-lhe a mão espalmada sobre o ventre e sussurrou:
- Rosa mística.

[...]

- Pedro, vamos embora daqui!
Ele ficou em silêncio. Um quero-quero guinchou, e sua voz metálica espraiou-se na noite quieta.
- Vamos, Pedro!
Pedro sacudiu a cabeça.
- Demasiado tarde.
Ana não entendeu bem o sentido daquelas palavras, mas, como o índio sacudisse a cabeça, ela viu que ele dizia não, que não.
- Mas por quê? Por quê? Se meu pai e meus irmãos descobrem, eles nos matam. Vamos embora.
- Demasiado tarde.
- Que é que vamos fazer então?
- Demasiado tarde. Voy morrer.
- Pedro!
- Eu vi... vi quando dois hombres enterraram mi cuerpo cerca dum árbol. Demasiado tarde.
- Como?
- Dois hombres. - murmurava Pedro - Mi cuerpo morto... cerca dum árbol.
- Um sonho?
- No. Eu vi.
- Mas como?
- Demasiado tarde.
Ana agarrou os ombros do índio e sacudiu-o.
- Então foge sozinho.
- Demasiado tarde.
- Foge, Pedro. Foge. Não é tarde, não. Depois nos encontramos... em qualquer lugar.
Parou, sem fôlego. Pedro sorriu e murmurou:
- Rosa mística.

[...]

Um dia, olhando o bordado branco que a espuma do sabão fazia na água, tinha a sensação de que Pedro nunca havia existido, e que tudo o que acontecera não passara dum pesadelo. Mas nesse mesmo instante o filho começou a mexer-se em suas entranhas e ela começou a brincar com uma idéia que dali por diante lhe daria a coragem necessária para enfrentar os momentos duros que estavam para vir: Ela trazia Pedro dentro de si. Pedro ia nascer de novo e portanto tudo estava bem e o mundo no fim de contas não era tão mal.

"Rosa Mística".

O Tempo e o Vento [parte 1] - O Continente vol. 1 - capítulo 4 - Ana Terra.
Da obra imortal de Érico Veríssimo.

És caudilho maragato, sem armas nem munição, peleando valentemente na defesa deste chão!"


O guri nasceu nos arredores de Ilha Bela, em São Paulo.
Bem longe, pra vir a pé. Lá não é frio nem é belo. Não do
jeito que ele gosta. Lá é praia, é quente, é azul e amarelo
com coqueiros e vento abafado. Era "menino" quando
nasceu. Veio a ser "guri" não muito tempo depois. Viajou
e ainda nem sabia falar. O pai era paulista, também. O pai
nasceu e se criou lá, no interior. A mãe era gaúcha,
o irmão mais velho também.
O guri aprendeu a andar, falar e viver no sul. No sul
é frio e é belo. No sul tem estâncias, vento frio, vento
minuano que só tem no sul. No sul é verde, azul, branco.
Do jeito que ele gosta.
O guri virou rapaz. Maragato, como se diz. Aprendeu
a amar sua pátria. Milongas, churrasco, mate amargo,
o frio que mais ama. O frio que é o que mais ama.
Que foi aqui que tudo nela fez com que o corpo dele
se congelasse. Que foi aqui que a voz dela paralisou
a alma dele. Que foi aqui que o jeito frio - frio, como
ele ama que seja - dela fez seu coração parar. Ele
a amou logo em seguida.
Nasceu lá, respirou a primeira vez lá, caminhou por lá,
com o pai de lá e a família vivendo lá, mas veio pra cá.
Aprendeu a viver aqui. Cresceu aqui. Se apaixonou por aqui.
E conheceu ela aqui. De tão longe, nos lugares quentes,
veio pra se apaixonar aqui, num dos pontos mais frios do país.
Caxias do Sul é frio. E é onde ela mora.

sábado, 10 de março de 2012

Mr. Confusion MADE a move.


Aprenda a anestesiar tudo.
Os fatos, as possibilidades, as dores e até mesmo as alegrias.
Aprenda a anestesiar as coisas mais sérias.
Aprenda a não criar expectativas. Aprenda a superar
desapontamentos. Aprenda a deixar que as coisas cooperem,
se elas quiserem, e a não dar a mínima se não quiserem.
Aprenda a guardar memórias inesquecíveis num cantinho
da lembrança que você não consiga alcançar - quando esquecer
se torna tão difícil assim - e não sofra.
Não sofra por ninguém.
Por nada.
Seja você por você.
Sempre foi você por você.
E quando você perceber que a única pessoa que sempre
vai fazer tudo por você e nunca vai lhe desejar mal algum
é você mesmo, vai entender tudo.
Seja seu centro.
Depois de doer tanto, a gente aprende.
Aprenda.

sexta-feira, 9 de março de 2012