Como, com tão pouco, é-se possível tornar-me frágil como o vidro? Rasgável como o papel? Como o aço incandescente, como a Terra sem órbita. Como os olhos vendados, o corpo ferido, a alma cortada. Mergulhado no lago da Limnátide, deixado para ser devorado pelas malditas filhas do Olimpo. Ah, se Marius pudesse servir-me de exemplo! Ah, se Cosette servisse de exemplo para todas as ninfas feitas para habitar e estraçalhar a idade contemporânea! Meus olhos já não tem descanso, e meu coração só pulsa por Melpômene. Até que ponto as aventuras infames são capazes de tornar o que busco num simples e longínquo casebre em Númenor? O mar me engoliu, a desassociação e o desamparo me acolheram, as filhas de Salmacis me cercaram, e devorar-me-ão como se fez a Hermafrodito. Oh, que má sorte ver-se enlaçado pela ninfa egoísta e ser por ela amaldiçoado! Oh, que tédio infame tornar-se dois em um, sem definição de sexo predominante, que infinito infortúnio viver dois espíritos inimigos num corpo! São como paredes inquebráveis. São como o meu medo de nunca mais abrir os olhos. Até que se mergulhe e, pelo conformismo. Até que se mergulhe e, pela maldade. Até que se mergulhe e, pelo cansaço. Até que se mergulhe e, pelo egoísmo, jamais se torne à superfície. Salmacis jamais deixaria que o mundo visse que amava Hermafrodito. Jamais revelaria ao mundo, mesmo que não fosse esse o melhor exemplo, o quão belo poderia ter sido.
Então me vejo confuso e escondido sob lençóis invisíveis que me impedem de ver e ser visto, eu me vejo condenado pelo medo de ser sempre invisível. Preso nesse desenvolvimento (não por desenvolver-se, mas por não estar envolvido) existencial. Você pisa no freio, você puxa os arreios, mas...
O mal-do-século: o descaso que condena.