Sonhei contigo novamente, garoto.
Meus punhos cortavam os ares de encontro à tua cara - sim, digo cara não por gosto, mas pela licença que dou à palavra rosto de não habitar tua descrição -, e minhas pernas funcionavam como locomotivas para meus pés que encontravam teu estômago. Eu sonhei que como na primeira vez, tua concubina se ajoelhava aos prantos, implorando que eu nada fizesse; eu me limitava a sorrir e continuar a esmurrá-lo, poupando-a de saber da tua última tentativa de tomar o que não é teu - é meu -, sem considerar aquela que no momento chorava por ti. Alguém que tu, tão friamente, desprezou ao abusar de minha paciência e espaço ao tentar uma reaproximação com alguém que não lhe diz e jamais lhe dirá respeito.
Um homem não despreza sua mulher assim.
Um homem não trai assim.
Um homem não pode ser tão desonrado.
Um homem não ignora alguém que habita/habitou (sabe-se lá que espaço a pobre miserável ocupa na tua alma sórdida, repugnante, ascosa, asquerosa, baixa, torpe, imunda, desgostante, desprezível - sim, sei que são sinônimos, mas cada um é um belo e diminuto reconhecimento do teu ser, do[a] teu[tua falta de] caráter.) seu coração.
E é por isso que não o trato como homem; tampouco deveria tratá-lo como garoto. Abaixo de um verme, és, pra mim, vômito.
E em meu sonho - um pesadelo, pois é um pesadelo ter por irrealidade o que gostaria de concretizar numa vida - eu esmurrava e golpeava e trazia dor às tuas entranhas com um gosto inominável. Tua cara era já uma massa disforme de carne, e nunca vi num sonho tal riqueza de detalhes, pois mesmo ao chão eu via teu rastro de sangue, e tiras do mesmo vinho vermelho manchando-me o punho. Pode parecer desumano, eu sei, mas o que há de errado em causar sofrimento aos vermes? Aos parasitas? Às menores e menos significantes formas de vida?
Eu desejo a ti o mal. A dor. Tudo o que há de frio e disforme no mundo da desgraça. Eu desejo a ti a distância de todos os teus sonhos, de todas as aspirações, de toda a felicidade. Eu desejo o limbo - deixo o inferno para inimigos mais dignos -, uma escuridão inabitável onde viverá somente com teus pesadelos. Eu desejo, criatura - não uso como vocabulário usual: trato-o por criatura porque o vejo abaixo de um humano -, que tudo o que há na tua vida torne-se em ruína e que teu gosto por viver seja tão mínimo que findar-se a si mesmo seja tua única saída. Tua única luz será a escuridão, e aí eu sorrio por um breve segundo - mesmo teu fim não merece maior atenção de mim -, e um lado de mim (o pior) torce para que tu ouses cruzar meu caminho, novamente, com intenções que se contraponham às minhas. Com interesses que cruzem os meus. Com desejos que desrespeitem meu espaço.
E jamais, nem por um segundo, desejo-te a morte.
Eu quero mais.
[E eu que me julgava curado, vejo que as palavras vis ainda buscam amargar-me a língua.]
